Plano do MEC de obter dados de alunos precipita queda do chefe do Enem, diz jornal

O Ministério da Educação do Governo Bolsonaro, que já enfrenta protestos nacionais contra os cortes de verba, terá de lidar com um novo incêndio. Nesta quinta-feira, um dia depois das manifestações em todo o país cobrando o MEC, a pasta confirmou a demissão de Elmer Vicenzi da presidência do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais). Não se trata de uma baixa qualquer.

O órgão é responsável pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o maior vestibular do país. Mais: não só Vicenzi é o segundo a deixar o cargo sob Bolsonaro, em mais um sintoma dos problemas na pasta, como os motivos que levaram a sua queda têm potencial para provocar uma reação ainda maior da comunidade acadêmica.

De acordo com os jornais O Globo e Folha, o agora ex-chefe do Inep abriu uma crise no órgão ao requisitar, a pedido da cúpula do ministério, o acesso a dados dos alunos que constam dos censos estudantis. A assessoria jurídica negou, e os servidores da área começaram uma debandada. O desgaste acabaria precipitando a demissão de Vicenzi.

De acordo com o MEC, foi o próprio Vicenzi quem pediu demissão. Ex-delegado da Polícia Federal, ele chegou ao posto nomeado pelo ministro Abraham Weintraub em 15 de abril. Já preenchia um vácuo após a queda, em 26 de março, de Marcus Vinicius Rodrigues, ainda sob o ministro anterior, Ricardo Vélez Rodríguez. Ainda segundo os jornais, o desejo do MEC com os dados sigilosos era, entre outros, emitir carteirinhas estudantis e assim minar a principal fonte de renda da UNE (União Nacional dos Estudantes), a mais tradicional organização de alunos e tradicionalmente ligada à esquerda.

Para além do potencial escândalo que, se confirmado, vai inflamar ainda mais os ânimos, a confusão já tem impacto no Enem. Além do desafio logístico de arrumar uma nova gráfica para imprimir o exame para cerca de 5 milhões de estudantes —a empresa anterior declarou falência—, o próximo nomeado seguirá no centro dos holofotes. Um dos motivos é o que Enem é parte importante da “guerra cultural” de Bolsonaro na educação. O presidente já acusou a prova de ecoar a “doutrinação marxista” e disse mais de uma vez que gostaria de ver o exame, o que contraria as regras legais.

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