Perseguição e risco de morte na Guarda Municipal de Salvador: ex-comandante foi colocado para atuar sozinho em local vulnerável

Uma situação inusitada tem sido considerada como mais um episódio de perseguição e assédio na Guarda Civil Municipal de Salvador (GCMS). Imagens feitas na manhã desta quinta-feira (04) mostram o ex-comandante da corporação João Neto em serviço em um posto de saúde localizado na região dos Aflitos, no centro da capital baiana.

O que poderia ser considerado demérito é normal para qualquer servidor público de Salvador. A gestão municipal pode movimentar o trabalhador para onde a necessidade do serviço seja imperiosa. Ocorre que João Neto foi o primeiro Inspetor Geral de carreira da GCMS após a obrigatoriedade prevista na Lei 13022/14 de que somente guardas civis poderiam alcançar o status de maior posto da corporação. Nomeado pelo prefeito ACM Neto (DEM), o guarda civil foi responsável por inovações e incrementos tecnológicos e gerenciais no órgão e goza de respeito entre os colegas.

Entenda o caso – Mantido em atividades administrativas, o agora ex-inspetor contribuia com seus conhecimentos profissionais para modernização tecnológica dos processos gerenciais da GCMS. Uma ida à Brasília (DF) para participar de uma mobilização em defesa da Previdência Social foi o estopim do novo capítulo de perseguição. Mesmo encontrando o prefeito no retorno à Salvador que teria hipotecado apoio à atitude tomada pelo guarda municipal, ao chegar no órgão, João Neto foi mudado de setor e ficado na “geladeira” [sem função determinada] como forma de castigo.

Obrigado a buscar colocação para exercer suas atividades de guarda municipal, João Neto pediu aos responsáveis por vários setores que acolhessem sua presença em seus grupamentos e unidades administrativas. Aceito pelos superiores imediatos, os pedidos de movimentação foram negadas num jogo de empurra empurra entre o atual inspetor Alysson Carvalho ou por seus auxiliares diretos. Paiol, transporte, Corpo da Guarda, grupamento ambiental e de operações foram os setores que tiveram que negar a movimentação do ex-inspetor. Restou o trabalho nas ruas da cidade, de pronto aceito pelo guarda concursado. A opção de um posto fixo na recém inaugurada Piscina Olímpica bancado por um supervisor foi negada de última hora por ordem superior. “Fiz todos os procedimentos burocráticos para garantir minha movimentação dentro do órgão. De imediato me apresentei e não fui designado a nenhuma atividade. Fui um dos criadores do Grupamento Ambiental e tive minha ida pra lá negada. No Paiol e no Corpo da Guarda também não pude. Os colegas ficavam atônitos porque abrigariam um ex-inspetor em seus grupamentos e isso não acontece tradicionalmente em nenhuma corporação que respeita seus integrantes. Além da queda, coice e buscaram a opção das ruas para demonstrar claramente a perseguição de natureza pessoal e política a qual estou sendo submetido”, disse o guarda civil João Neto à nossa reportagem.

Perguntado se a situação era uma determinação do executivo municipal, João Neto afirmou não crer nessa possibilidade “Não acredito nisso. Encontrei causalmente o prefeito ACM Neto no aeroporto no retorno para Salvador, retornamos juntos. Conversamos e ele demonstrou apoio a minha atitude em fazer essa jornada pela nossa previdência em Brasília. Na minha opinião, o prefeito não sabe dessa situação e se souber, certamente não coaduna com esses expedientes na sua gestão. Penso que a falta de conhecimento e inexperiência do Diretor de Prevenção à Violência [Maurício Rosa] acerca do funcionamento dos órgãos de segurança pública e a inexperiência de alguns gestores atuais da GCMS contribuíram para este mal entendido, apontou.

Risco de vida – Colegas de João Neto temem pela sua vida nas ruas da cidade. Pelo fato de ter ocupado o posto de maior visibilidade na corporação, sua presença em locais vulneráveis pode facilitar ações de revanche de marginais combatidos pelo órgão em operações conduzidas por ele. Lembram ainda de que há cerca de cinco anos, o inspetor da Guarda Civil Municipal de Feira de Santana, Marcus Vinícius foi abatido a tiros na cidade após retornar ao serviço normal depois de sua exoneração em situações semelhantes com a de João Neto.

“Nunca se viu algo assim. Imagine na Polícia Militar que um ex-comandante geral seja colocado para fazer policiamento à pé em um bairro perigoso ou então em um módulo fixo sozinho. Isso que vai acontecer com o colega agora. Estão querendo matar nosso colega assim como fizeram com Marcus Vinicius que foi colocado para alimentar as feras nas ruas”, declarou um guarda civil ouvido pela nossa reportagem.

Punição e disciplina – O anonimato dos guardas municipais é uma forma de resguardo em relação ao Regime Disciplinar existente no órgão. Punições severas podem ser impostas aos guardas por denunciarem situações como essa denunciada. Segundo informações, um gerente foi exonerado como forma de puní-lo por manter João Neto em setor de sua responsabilidade.

“Os guardas estão submetidos a esse RD [Regime Disciplinar] que pune imediato os colegas que porventura denunciarem perseguições e assédios. As punições podem ser potencializadas com as perseguições como essas que João Neto tem sofrido. Nós gostaríamos que a mesma Câmara Municipal que aprovou esse regulamento de maneira veloz, também possa absorver esse caso como forma de defender a legalidade na máquina pública do município. A Guarda Civil Municipal hoje é um poço de vaidades pessoais traduzidas em ações institucionais. O serviço público não deve ser casa personalizada. Impessoalidade é fundamental e exigência natural”, apontou o coordenador geral do Sindicato dos Servidores da Prefeitura de Salvador (Sindseps), Marcelo Rocha.

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2 comentários

  1. GCMNAVEIA Reply

    Engraçado que quando era outros guardas municipais que mesmo ainda com esse ex-Inspetor Geral que estava em postos de serviço assim não havia essa questão de perseguição e assédio, pois os outros podem agora o mesmo que foi ex-chefe não pode. Na época que esse saiu inclusive travou o sistema de gerenciamento da Guarda pois ele tinha comprado sistema e ficou com a senha na mão, quando saiu do cargo de inspetor e travou durante alguns dias por ter ficado chatiadinho por ter perdido o cargo de chefe. Tem muito chefe assim que se perder o cargo e status de chefe fica chatiadinho pois achasse superior aos demais !!!!!!

  2. Alex Andrade Reply

    Essa é a Lei do Retorno que a vida proporciona. Se ele tivesse sido um bom gestor na época que era Inspetor da GCMS, hj ele não estaria com medo de está nas ruas. Se a Polícia Militar colocar um ex-comandante para fazer serviço de rua, não vai haver diferença nenhuma. Pq quem está nas ruas não é o comandante e sim os combatentes. Tenho certeza que esse medo todo que ele diz sentir, é devido a opressão que ele deve ter imposta aos seus comandados. A vida é uma bola e ela dá muitas voltas, hj ele tá colhendo o que plantou…

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