Igualdade racial para valer se faz combatendo o racismo religioso, por Sílvio Humberto

Em setembro de 2017, escrevi um artigo chamado “contra intolerância, mais respeito e dignidade humana”, abordando a onda crescente de atos de intolerância religiosa e citei o caso grave de violação de direitos humanos ocorrido em Nova Iguaçu, onde bandidos obrigaram uma sacerdotisa a quebrar, por suas próprias mãos, seus objetos sagrados.

Recentemente, causou revolta e indignação a invasão seguida de roubos dos presentes, agressão física ao Babalorixá Richelmy e a profanação da cerimônia religiosa: águas de Oxalá da Casa do Mensageiro. É uma cerimônia religiosa realizada pelos terreiros, que pode ser traduzida aos não iniciados como o fortalecimento dos caminhos para a paz, tão necessária em tempos de “é selva, capitão!”, com pedidos de serenidade, temperança, sabedoria ao pai maior.

Essas agressões somam-se às inúmeras que têm grassado em todo país, um “tá amarrado aqui, tá amarrado acolá em nome de Jesus”, algo que, infelizmente, entrou no cotidiano dos baianos praticantes do culto aos orixás, inquices, voduns e encantados, que as ouvem nas ruas quando não seguidas de agressões físicas, bíblia na cabeça, sal na Pedra de Xangô, enxofre nas porteiras dos terreiros, pichações e inclusive dentro do seio familiar.

Um conjunto de violações que já ultrapassaram a seara da intolerância religiosa. Não são atos isolados e sim algo sistêmico e direcionado à religiosidade de matriz africana e afro-brasileira.

Há ação em julgamento no STF, que objetiva criminalizar a sacralização dos animais. Somos o alvo preferencial. Não é preconceito religioso, é racismo. Racismo religioso, que defende uma única verdade e salvação, avança a passos largos, rumo ao passado das perseguições policiais.

Fazem-se necessárias mais mobilizações de todas as nossas denominações. Insisto mais uma vez que é preciso fazê-lo da porteira para dentro e, sobretudo, da porteira para fora. O sagrado vem dando o caminho quando se deixa até ser ”atingido” por algumas dessas violações.

Portanto, é preciso: mais rua, o fortalecimento do dia 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, transformando-o em um novo 20 de novembro; mais ações por dentro das instituições jurídicas, a exemplo do MP-BA, a realização do IIIº Seminário sobre Intolerância religiosa e Estado Laico; mais interação entre o parlamento e a sociedade civil. Conclamo a mobilização de todos para a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e Combate à Intolerância Religiosa da cidade de Salvador, no próximo mês de fevereiro. Nós, os edis e as edis, poderemos dotar a cidade de Salvador de um importante instrumento que nos permitirá navegar rumo à igualdade racial para valer e respeito à liberdade religiosa.

Vereador Sílvio Humberto (PSB) – Presidente da Comissão de Cultura da Câmara Municipal de Salvador

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