Não é só machismo: o debate levantado por Serena Williams

Naomi Osaka venceu a final do Aberto dos EUA (US Open) contra Serena Williams, a lenda. No entanto, não foi isso que os meios de comunicação destacaram, tampouco o que foi falado na rua ou nas redes sociais. Foi Serena Williams e uma tripla punição. Ela perdeu a cabeça, destruiu a raquete contra o chão e enfrentou o árbitro Carlos Ramos: “Você é um mentiroso, um ladrão!”. “Eu sou mãe, prefiro perder do que roubar!”. “Você me deve desculpas, me deve desculpas!”. “Nunca mais vai apitar um jogo meu! É porque sou mulher e você sabe disso! Se fosse homem, não faria isso!”. “Você está atacando minha personalidade!”.

Serena transformou uma resposta ruim à pressão de uma partida em uma bandeira feminista; e as advertências do árbitro, que estavam dentro das regras, segundo os especialistas, em um ataque sexista. Há um duplo debate: sobre sua atitude e sobre o machismo no mundo do tênis. Mas, nessa ocasião, eles transcorrem separadamente.

O feminismo se tornou um imenso manto que cobre tudo, com mais força nos últimos dois anos; empurrado pelas ruas, redes sociais, jornais, rádios, televisões, sites, pelo mundo do cinema e da música, por influencers, youtubers e rostos conhecidos de diferentes áreas, em todos os níveis: cultural, político, econômico e social. Mas essa perspectiva, que já faz parte do debate diário, nem sempre é a resposta, não serve para tudo e não deve ser usada como desculpa, de acordo com muitas feministas e especialistas consultadas. Não é um curinga nem dá carta branca a ninguém, a qualquer momento e para qualquer coisa. Mari Ángeles Cabré, diretora do Observatório Cultural de Gênero da Espanha, questiona se Serena Williams gritou naquele momento porque a estavam ofendendo como mulher. Sua resposta é negativa: “O feminismo não é um escudo para deter todos os golpes que a vida nos dá, exige responsabilidade e bom uso”.

Isso nem sempre se faz e essa manipulação do discurso joga contra; em um movimento que cresce e se expande a uma velocidade vertiginosa, que já é maciço e tem alto-falantes capazes de atingir milhões de pessoas ao mesmo tempo, os disfarces não fazem falta. Que no tênis existe discriminação salarial por gênero, discriminação de tratamento, de cobertura da mídia e de cuidado institucional é um fato.

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