“Alô, em quem você votaria para presidente? E você confiaria nesta pesquisa?”

O alerta foi dado pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep): “Os levantamentos e coletas de opiniões realizados por meio de ligações telefônicas, para pesquisas eleitorais de intenção de voto, não são recomendadas para esse fim”. Segundo a Abep, essas pesquisas “nem sempre retratam com fidelidade a percepção real da maioria dos eleitores, em função da falta de listagens exaustivas dos números de telefone, principalmente os dos celulares”. Apesar do aviso, duas delas, feitas pelo DataPoder360 e pelo Ipespe, foram levadas bem a sério e agitaram o mercado financeiro brasileiro nesta semana ao mostrar o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) consolidado na liderança. Se, por um lado, o debate coloca as pesquisas telefônicas sob escrutínio público, há quem enxergue uma tentativa de reserva de mercado dos maiores institutos de pesquisa do país, que estariam perdendo receita com a concorrência de empresas menores.

Maurício Moura, presidente da Ideia Big Data, diz que a Abep faz um bom trabalho de zelar pela qualidade das pesquisas que são tornadas públicas, mas considera a questão mais complexa. Pesquisador visitante da George Washington University, Moura destaca que mais de 90% das pesquisas nos Estados Unidos são telefônicas. “Não existe metodologia perfeita, e qualquer coleta de dados tem ponderação estatística, com exceção do Censo [demográfico]. Uma pesquisa feita no horário comercial é diferente de uma pesquisa feita à noite. E há institutos no Brasil com altíssima competência, que fazem pesquisa telefônica com a mesma qualidade dos institutos nos Estados Unidos”, defende o presidente da Ideia Big Data, cujos principais clientes de pesquisas presidenciais são bancos.

Roman enxerga muitos limites para as pesquisas telefônicas no Brasil. O eleitorado mais radical e fiel, por exemplo, tende a ter mais paciência para aguardar na linha até o final das perguntas, o que pode beneficiar um candidato como Bolsonaro e prejudicar uma candidata como a ex-ministra Marina Silva (Rede). Mas o cientista político reconhece que, no longo prazo, vai ser cada vez mais difícil fazer pesquisas presenciais, porque elas são muito caras. Para se ter uma ideia da diferença, a empresa Vertude Tecnologia registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma pesquisa presidencial no dia 2 de junho para ouvir 5.350 pessoas por telefone ao preço de 85.000 reais. A última pesquisa do Datafolha sobre a corrida pelo Palácio do Planalto foi registrada ao custo de 398.344 reais.

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